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Violência no Sul do Estado expõe fragilidades e a importância das redes de proteção

  • 30 de jan.
  • 5 min de leitura

Mesmo com avanços pontuais na segurança, a região sul enfrenta aumento da violência contra mulheres, crianças e adolescentes


Por Jornal Tradição Regional

Foto: Daniela Alves/JTR
Foto: Daniela Alves/JTR

Durante 2025, debates relacionados à violência permaneceram em destaque na agenda pública brasileira, colocando em questão, inclusive, dados oficiais: apesar da redução de cerca de 11% no total de homicídios em todo país, apontada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a queda não se traduziu de forma homogênea para todas as formas de violência.


No caso da violência de gênero, por exemplo, o Brasil viveu um ano trágico: segundo o MJSP, 1.470 casos de feminicídio foram registrados, o maior número já computado e o equivalente a, em média, quatro mulheres assassinadas por dia no país. Já a Pesquisa Nacional de Violência Contra a Mulher revelou que 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica durante 2025.


No Rio Grande do Sul, violências ganharam contornos cada vez mais urgentes. O interior do estado revela desafios distintos, mas com um traço em comum: necessidade por redes de proteção ainda mais habilitadas e integradas.


Cresce o número de pedidos de medidas protetivas em Rio Grande

Em comparação a 2024, o número de pedidos por medidas protetivas em Rio Grande teve um aumento de cerca de 22% em 2025, ultrapassando 1.300 solicitações. Ainda assim, para a delegada Alexandra Sosa, da Delegacia de Polícia de Proteção a Grupos Vulneráveis (DPPGV), esse cenário não é um fenômeno isolado do município.


Alexandra explica que a violência doméstica está relacionada a uma estrutura patriarcal presente em todos os municípios. A diferença, nesse contexto, está na presença de uma rede de proteção atuante, capaz de acolher as vítimas e oferecer apoio assistencial. Segundo a delegada, o aumento no número de ocorrências na cidade pode estar diretamente ligado a esse suporte: “Esse número cresce justamente porque a rede busca apoiar essas mulheres (…) O apoio a essa mulher permite que ela rompa o silêncio e se sinta acolhida”.


A rede de proteção e seus limites

Atualmente, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), em Rio Grande, é integrada à DPPGV. Esta, por sua vez, abrange a proteção a idosos, crianças e adolescentes, e vítimas de preconceito e violência doméstica. Dessa forma, apesar da estrutura qualificada e do preparo dos agentes, a demanda é significativa. “Atendemos a todas as áreas com a mesma dedicação (…), entretanto, muito embora os policiais sejam capacitados, acredito que há falta de efetivos para todas essas demandas”, afirma.


A situação de Rio Grande reflete, também, um problema estrutural no Rio Grande do Sul. O estado conta com Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) em apenas 23 dos seus 497 municípios — o equivalente a 4,6% das cidades gaúchas, segundo dados da Polícia Civil. Além do número reduzido de unidades, há ainda casos de ausência de delegadas titulares e déficit de efetivo, o que amplia a sobrecarga das equipes e limita o atendimento às vítimas.


Quanto à possível reabertura da DEAM na cidade, a delegada considera necessária a atuação da delegacia. “Existe um trâmite para a reabertura da delegacia da mulher, a qual sempre será muito importante por ser especializada unicamente no atendimento e na apuração da violência contra a mulher (…) Entendemos a força da DEAM no município”, concluiu a autoridade.


O desafio da violência contra crianças e adolescentes em Pelotas

Em Pelotas, o foco recai sobre outra face da violência: crianças e adolescentes vítimas de abuso. A delegada Lisiane Mattarredona, da Delegacia da Criança e do Adolescente (DPCA), descreve que os crimes mais recorrentes atendidos pela unidade são, justamente, os de maus-tratos e estupro de vulnerável — geralmente cometidos por pessoas consideradas de confiança pelas vítimas.


Do interior das residências às escolas, a DPCA destaca a importância de prestar atenção aos sinais de violência que, por sua vez, apresentam-se de formas diferentes. Mudanças bruscas no comportamento e lesões recorrentes são exemplos de alertas que merecem acolhimento.


“O papel da escola e do serviço de saúde é fundamental porque, muitas vezes, são portas de entrada da situação de violência”, reforçou Lisiane.

Após a criação do Centro de Referência Infanto-Juvenil (CRAI) em 20222 e de um comitê de enfrentamento à violência, Pelotas passou a reforçar a atuação em rede, envolvendo secretarias de Saúde e Educação, Polícia Civil, Brigada Militar, Guarda Municipal, Ministério Público e Judiciário. Parte desta estratégia, segundo a delegada, é o uso da notificação compulsória: qualquer órgão que tenha conhecimento de uma situação de violência contra crianças ou adolescentes deve formalizar a denúncia à polícia ou ao Conselho Tutelar.


Ainda assim, a autoridade não minimiza as dificuldades da DPCA: “O principal desafio é, cada vez mais, ter suporte para atender todos os casos de violência infantojuvenil (…) Também temos um desafio muito grande relacionado à parte da internet”, destacou. Segundo Lisiane, são comuns as ocorrências relacionadas a pedofilia, pornografia infantojunivel, instigação ao suicídio e assédio digital.


A delegada ressaltou, ainda, a importância de iniciativas de prevenção como o programa Papo de Responsa, que busca orientar crianças e adolescentes sobre seus direitos e deveres através de palestras em escolas, além de programas como Galera do Bem e Liberdade, que incentivam o diálogo e a denúncia nos espaços escolares.


Violência e vulnerabilidade na fronteira com o Uruguai

Em Jaguarão, município fronteiriço ao Uruguai, a realidade assume características de uma cidade pequena, mas com desafios específicos. Segundo a Polícia Civil, as ocorrências mais comuns na cidade envolvem violência doméstica e familiar, com influências ligadas ao tráfico de drogas e às consequências da dependência química.

De acordo com a delegada Juliana Ribeiro, o contexto de fronteira “dificulta algumas ações no âmbito da polícia, tendo em vista que se trata de dois países com leis bastantes distintas”. Mulheres e crianças, segundo a autoridade, estão entre os grupos mais vulneráveis de Jaguarão — em parte por questões culturais e econômicas que agravam o problema.


Há, por outro lado, cooperação entre Brasil e Uruguai. Essa colaboração está amparada por acordos oficiais de segurança pública que preveem o intercâmbio de informações e apoio operacional entre as polícias dos dois países. Em janeiro de 2026, por exemplo, a Polícia Federal, em ação coordenada com autoridades uruguaias, efetuou a extradição de três foragidos por crimes cometidos no Rio Grande do Sul — um uruguaio e dois brasileiros — que estavam detidos no Uruguai e foram repassados às autoridades brasileiras para cumprimento de pena.


Ainda assim, como Juliana ressalta, “a legislação ainda é muito deficiente no que diz respeito ao tema e ao modo de atuação”. Somada aos desafios, existe, ainda, a demanda por mais efetivos e pela maior qualidade em estrutura.

A redução dos homicídios registrada em 2025 ajuda a explicar parte do cenário da segurança pública no país, mas não dá conta, sozinha, de realidades que seguem marcadas pela violência no cotidiano. Nos atendimentos às mulheres, crianças e adolescentes, por exemplo, os números seguem alarmantes.


Em municípios como Rio Grande, Pelotas e Jaguarão, o aumento de pedidos por medidas protetivas, o volume de denúncias e as dificuldades enfrentadas pelas redes de atendimento indicam que a violência permanece, e exige, cada vez mais, a articulação entre instituições e políticas públicas.


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