Suspensão no recebimento de pêssego gera perdas e revolta produtores em Pelotas
- Rádio Tupanci
- 16 de dez. de 2025
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Diante da incerteza de venda, muitos produtores optaram por interromper a colheita para reduzir gastos, enquanto outros acabaram descartando a produção já retirada do pomar
Por Celestino Garcia / Jornal Tradição

A suspensão inesperada do recebimento de pêssegos por parte da indústria de conservas Golden Peach, no 7º distrito de Pelotas, provocou prejuízos expressivos a produtores rurais da região e reacendeu o debate sobre a fragilidade da cadeia produtiva da fruta. O comunicado foi feito apenas na tarde da última sexta-feira (12), por volta das 16h, quando a colheita já estava em andamento e diversos caminhões carregados aguardavam descarregamento em frente à indústria, na localidade da Ponte Cordeiro de Farias.
Segundo relatos dos produtores, toda a fruta colhida na quinta e na sexta-feira acabou permanecendo nas propriedades ou nos caminhões parados, acelerando a perda de qualidade. No sábado (13), por volta das 11h30, os veículos foram autorizados a acessar o pátio, porém apenas dois caminhões tiveram a carga destinada diretamente à linha de produção. O restante descarregou a fruta para armazenamento e análise posterior, prevista para a segunda-feira (15), sem garantia de aproveitamento.
Diante da incerteza, muitos produtores optaram por interromper a colheita para reduzir gastos, enquanto outros acabaram descartando a produção já retirada do pomar. O impacto financeiro é considerado irreversível, especialmente pelos custos de colheita, que chegam a cerca de R$ 5 por caixa, além do frete e da mão de obra já contratada. Há produtores que relatam perdas de dezenas de toneladas em poucos dias.
O agricultor Jonas* afirmou que só não perdeu cerca de 30 toneladas de pêssego porque conseguiu redirecionar parte da produção para outra indústria. Segundo ele, o aviso da suspensão chegou quando caminhões já estavam carregados. “A gente trabalha o ano inteiro dependendo da safra. Muitas vezes somos incentivados a plantar mais, com a garantia de que toda a fruta será recebida, e depois acontece isso”, relatou.
Outros produtores também afirmam que, na manhã de quinta-feira (11), a indústria já apresentava grande volume de fruta armazenada em condições inadequadas, mas a comunicação oficial só ocorreu no fim da tarde de sexta-feira. A situação gerou indignação no campo, sobretudo porque, conforme os relatos, havia um compromisso prévio de recebimento integral da produção.
O presidente da Associação de Produtores de Pêssego, Adriano Bosenbecker, confirmou que tomou conhecimento de episódios semelhantes envolvendo indústrias da região justamente no pico da safra. Para ele, situações como essa se repetem em anos de grande produção, mas poderiam ser minimizadas com planejamento e comunicação antecipada. Bosenbecker destacou ainda que o excesso de oferta vem sendo usado como argumento para redução de preços pagos ao produtor, com a promessa de absorção total da fruta — o que, na prática, não ocorreu.
A crise ocorre em meio a uma safra considerada positiva em volume. O Rio Grande do Sul responde por mais de 60% da produção nacional de pêssego, com a região de Pelotas e Canguçu concentrando grande parte da fruta destinada à indústria. Segundo a Emater, cerca de 30% da safra regional está sendo colhida neste período, justamente o de maior pressão sobre o escoamento.
O chefe do escritório regional da Emater em Pelotas, Rodrigo Prestes, alertou que o pêssego é atualmente a cultura mais impactada, tanto pelas perdas climáticas quanto pelo cenário financeiro. Chuvas intensas, que em algumas localidades ultrapassaram 300 milímetros, associadas ao calor e à umidade, têm favorecido a incidência de doenças como a podridão-parda, agravando ainda mais as perdas no campo.
Apesar da boa produtividade, os preços pagos ao produtor seguem abaixo do esperado, pressionando a rentabilidade e colocando em risco a sustentabilidade da atividade, especialmente entre pequenos agricultores. O Jornal Tradição Regional procurou a empresa Golden Peach para ouvir o contraponto, mas até o fechamento desta edição não obteve retorno.
*A reportagem criou um nome fictício para o entrevistado, que optou por não se identificar





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