Estudo pioneiro na oncologia é promovido pela UFPel
- Rádio Tupanci
- 25 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
Pesquisa no Ambulatório de Radioterapia do HE-UFPel busca identificar e superar barreiras no acesso ao tratamento de câncer no SUS

Em uma iniciativa que visa ampliar o acesso e fortalecer a continuidade do cuidado oncológico no Sistema Único de Saúde (SUS), o Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel), vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), está conduzindo um estudo sobre navegação de pacientes. A pesquisa é liderada pela enfermeira da Unidade e mestranda, Natália Leal Duarte de Almeida, com orientação da docente da UFPel, Juliana Graciela Vestena Zillmer.
O estudo, parte de um projeto de mestrado, busca identificar as necessidades de navegação dos pacientes atendidos no Ambulatório de Radioterapia, da Unidade de Oncologia. A navegação de pacientes é uma estratégia inovadora que oferece orientação e suporte individualizados desde o diagnóstico até o tratamento, com o objetivo de superar as barreiras de acesso e melhorar a qualidade do cuidado. Os dados coletados serão fundamentais para planejar a criação de um programa de navegação específico para o serviço de Radioterapia do HE-UFPel.
Como a pesquisa está sendo desenvolvida
A primeira fase do estudo, que vai de 21 de julho a 30 de agosto, convida todos os pacientes em tratamento no Ambulatório de Radioterapia a participar. A coleta de dados será feita por meio de formulários, aplicação de uma escala de avaliação das necessidades de navegação, entrevistas individuais e grupos de convergência.
"Nesta primeira etapa, a pesquisa visa desenvolver as fases de diagnóstico e planejamento de um programa de navegação para pacientes com câncer, adaptado às especificidades do nosso serviço", explicou a enfermeira e pesquisadora Natália. A metodologia é baseada no modelo de formação do George Washington Cancer Institute, dos Estados Unidos. "A partir daí, teremos subsídios para, no doutorado, elaborarmos um protótipo de um programa de navegação, que poderá ser implementado no Ambulatório de Radioterapia/Unidade de Oncologia", detalhou a mestranda.
Natália ressaltou que o estudo permitirá traçar o perfil sociodemográfico, socioeconômico e clínico dos pacientes oncológicos da unidade, além de mapear os pontos críticos do atendimento. "O câncer é uma doença crônica não transmissível e representa um importante desafio para o sistema público de saúde. As barreiras de acesso afetam diretamente o prognóstico dos pacientes", pontuou.
Entre os possíveis benefícios estão a melhoria na qualidade da assistência prestada, a escuta ativa dos pacientes sobre suas dificuldades e o aprimoramento das estratégias de cuidado. A pesquisadora reforçou: "O estudo cria a possibilidade de identificar, junto aos pacientes, os pontos em que mais precisam de assistência, além de propor formas de minimizar essas barreiras no acesso aos serviços de saúde". Para os profissionais, o processo de escuta também poderá gerar percepções para a qualificação da assistência e o fortalecimento do trabalho em equipe.
O Impacto da Navegação no Cuidado Oncológico
Para a chefe da Unidade de Oncologia do HE-UFPel, Larissa Maria Zalewski, a navegação é crucial para qualificar o cuidado prestado aos pacientes oncológicos. "O HE atende pessoas de diferentes municípios e classes sociais. A navegação, que atua na coordenação do cuidado, certamente vai facilitar a vida dos pacientes e melhorar o tratamento. Muitos se deslocam várias vezes por semana para consultas, exames e procedimentos, e acabam esquecendo etapas importantes. Isso atrasa a avaliação médica. Essa proposta é um excelente projeto-piloto e, com certeza, servirá de base para ampliarmos essa prática em toda a Unidade".
Larissa também destacou os impactos esperados com a implantação da iniciativa. "A principal mudança será a qualificação do cuidado. Já temos uma equipe próxima dos pacientes, mas a navegação em Enfermagem vai intensificar esse acompanhamento, esclarecer dúvidas e organizar melhor as etapas do tratamento. Os pacientes recebem diversas informações ao mesmo tempo, e, muitas vezes, se perdem ou não têm tempo de perguntar. Com uma profissional dedicada a guiá-los, eles vão se sentir mais acolhidos e amparados, contribuindo para uma linha de cuidado mais eficiente".
Entrevistas e Articulação entre Hospital e Universidade
Segundo Natália, embora o estudo envolva temáticas sensíveis, os riscos aos participantes são mínimos. "Pode haver desconforto ao relembrar momentos difíceis, mas vamos acolher essas situações com escuta terapêutica e, se necessário, com encaminhamento ao serviço de psicologia. Todos têm o direito de não responder alguma pergunta ou deixar a pesquisa quando quiserem".
Para a orientadora Juliana, "A articulação entre Hospital e Universidade permite que as pesquisas sejam desenvolvidas considerando as necessidades reais dos pacientes com câncer, dos trabalhadores e do serviço de saúde. Essa articulação possibilita acessar o conhecimento científico com a melhor evidência e utilizar metodologias de pesquisa avançadas facilitando a tradução do conhecimento científico em ações seguras e aplicáveis no contexto da clínica e cuidado do paciente. Considero importante ressaltar que se trata de um hospital de ensino, um campo riquíssimo de aprendizado para os estudantes da universidade, e que também contribuem para a mobilização desse conhecimento produzido".
Segundo a docente, esse tipo de integração entre prática e ciência é importante para gerar impactos concretos na rede pública de saúde. "A pesquisa ao identificar as barreiras de acesso ao tratamento da pessoa com câncer e os fatores que agilizam o atendimento permitirá o desenvolvimento de fluxos, ações e boas práticas que reduzam essas barreiras e qualifiquem ainda mais o cuidado. Ainda possibilitará agilizar o atendimento diminuindo o tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento, melhora na adesão à terapêutica, e desfecho clínico".
Juliana reforçou que os resultados da pesquisa têm potencial para orientar políticas públicas e fortalecer a experiência dos usuários no SUS: "Destaca-se também a melhoria na experiência e satisfação do paciente com câncer no SUS. Esses dados podem servir como evidências para justificar a implementação de programas de navegação em outros serviços e unidades do SUS." A ideia de desenvolver um programa de navegação partiu de uma necessidade identificada durante uma consultoria contratada para avaliar o serviço. A navegação de pacientes já é reconhecida como especialização pelo Conselho Federal de Enfermagem (COFEN).
Sobre a Ebserh
O HE-UFPel faz parte da Rede Ebserh desde 2014. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.





Comentários